quinta-feira, 26 de junho de 2008

Cássia Kiss. Cássia quero.




Há pouquíssimos meses, meu marido e eu assistíamos ao programa Entrelinhas da TV Cultura, como gostamos de fazer aqui em Palm Beach, e vimos, por assim dizer, uma reportagem sobre o poeta (pantanero) Manoel de Barros. Já tinha ouvido falar dele. Já tinha ouvido Cássia Kiss falar dele, mas, naquele dia, além do aconchego e aproximação que o programa consegue alcançar, ela não só falou, com aqueles seus olhos arregalados perguntando ao próprio entrevistador, mas leu Manoel de Barros. A reportagem também mesclou uma entrevista curta com o poeta e imagens daquele senhor, velhinho de camisa.
Aquilo marcou, assim como outros programas sobre outros autores marcaram.
Mas eis que a briga de audiência entre dois canais – estes, sim, privados – levou ao esdrúxulo (pelo menos, até agora, em matéria de televisão) acontecimento da reprise de uma telenovela que foi exibida por um terceiro canal, no início de 1990. Estou falando de Pantanal, um encanto, um projeto que soube reunir gente excelente e com coragem de fazer algo diferente e com qualidade (mas esse é, ainda, um outro assunto... ou não...).
E fico lá me deliciando com todas aquelas imagens, lamentando o fato de que a TV use muito estúdio, pouca cena externa, me atentando aos diálogos do Zé Dummont e da Cássia Kiss, esplêndidos, puros, de pé-no-chão, tudo aquilo me comovendo, me deixando dentro d´água, me deixando descalça, touchy. Tanta coisa me tocando por dentro, tudo que é idade passando, tudo que é isso tudo, que, da primeira vez, foi há mais de 18 anos atrás e nada ainda tinha acontecido, pensando no mato, na roça, no jeito de ver as águas, o pasto como algo natural, olhando os olhos dos ruminantes.
Maria Marruá morreu. Aos berros. Ela não cedeu, encarou a arma, encarou o homem de frente, com seus olhos saltados, mais do que animais. Uma cena linda de luta dentro d´água, tudo muito mulher, como a Cássia Kiss tem conseguido fazer.
No outro dia, no meu ambiente normal de trabalho, fiquei sabendo que Cássia estaria aqui, sim, aqui em Palmas, para um projeto sobre escritores brasileiros – ela leria textos, poemas do Manoel de Barros. De repente, tudo foi um encaixe e quase surreal, porque justo tudo aquilo que eu andava curtindo, tudo somado, já que o próprio poeta é também um poeta pantanero, o pantanal é personagem e presente em quase tudo que ele conta, presencia, inventa...
Fui, ouvi, me deliciei com o que se tornou raridade nos meus ouvidos, na minha alma, na minha pele na terra do horizonte sem fim... Ela, de vestidinho colorido, meia calça preta, sapatos boneca moderninhos, à la artista plástica, magra, ágil, sentada na ponta da mesa, com óculos quadrados, permitindo que ela olhasse por cima das lentes, quase parecendo uma velha, os cabelos de um liso cheio grosso, curtos, que ela bagunçava de tempo em tempo. Imprimiu naqueles versos delicadeza, pessoalidade de atriz competente e extasiada da poesia, falou do cavalo, do Bernardo, da nuvem de calças apertadas, da chuva derretendo a bosta de vaca, borboletas, sexo na pensão e na cabeça do adolescente poeta... Ela escolheu os versos e escolheu como contar, como dizer, como chegar no meu ouvido através de sua voz, que crescia, levantava nos momentos dela, as mãos se mexiam, os dedos ficavam em riste por vezes... Pensei que uma coisa era ler poesia, outra, era ouvir... e, através dela, aquilo era de encher o travesseiro.
No fim, não agüentei. Fui tietar, mas, com delicadeza, fui olhar de perto os sulcos da sua face, dizer que ela era xará da minha mãe, contar o lance do Entrelinhas e fazer uma brincadeirinha que usei pra abordar: “quase deixei de vir, pra poder te ver em Pantanal, mas a Maria Marruá morreu ontem...”. Ela, sorrindo mais os olhos do que a boca: “tadinha...”. Depois, conversamos mais duas vezes, inclusive, já lá fora, quando eu perguntei se ela, Cássia, também escrevia, ela disse: “cartas...”. Inclusive para o próprio Manoel de Barros, que respondia com graciosas quatro linhas de velho.
A professora carioca (palestrante da noite), Eliana Yunes era o nome dela, cheirando a Eternity, com sotaque limpo de aristocrata e português impecável, muito simpática, convidada a convidar os locutores ao incurso na leitura, na literatura, me aconselhou a deixar um pouco o Fórum quando lhe contei meu interesse em escrever.Era noite, menos quente do que qualquer outro dia, meu estômago, vazio, dava trégua, a única cerveja esperava no bar ao som do ritmo do Calipso genérico. Mas eu não estava lá, não havia nem braços ou cotovelos sobre a mesa, fui longe e não soube voltar.

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